abril 26, 2004

Vende-se, troca-se e oferece-se....

...mail’s.
Nos últimos tempos, chegam diariamente à caixa de correio deste blog uma série de mail’s “virados” (não no sentido tradicional, mas significando que contêm vírus).
O interessante é que todos os outros endereços que utilizo, continuam imunes a esta praga.
Será que alguém me rogou uma praga por eu me recusar a usar “Evolução” em vez de “Revolução”?

Publicado por vmar em 06:54 PM | Comentários (2)

abril 25, 2004

Homenagem póstuma

Homenagem a um Homem


Publicado por vmar em 10:37 PM | Comentários (4)

25 de Abril – Momentos Inesquecíveis

Fotos de Victor Valente

O Dia da Liberdade


Publicado por vmar em 12:17 AM | Comentários (4)

O meu primeiro dia de liberdade

Por poucos minutos não assisti, ao vivo, na madrugada libertadora do 25 de Abril, à tomada do Rádio Clube Português. Passei pela rua pouco antes da chegada dos militares, longe de imaginar o que estava prestes a acontecer. Nessa época, entre ensaios e espectáculos no Grupo de Teatro de Campolide, nunca ia cedo para casa.
Já em casa, acordei horas depois com a minha mãe ao telefonei. Já sei da “caldeirada”, ouvi na rádio, dizia ela ao meu pai que, mal chegara ao trabalho, inquieto com os acontecimentos, logo telefonou para casa a contar o que se passava.
Devo ter pensado cá para mim: Ups, temos caldeirada para o almoço?... Nesses anos de juventude eu não morria de amores por peixe, os meus amores eram outros....
Já desperto, a minha mãe informa-me que um movimento de militares eclodira para derrubar o governo. Confesso que não fiquei muito surpreendido. Pelos círculos do teatro independente por onde andava, em especial depois do fracassado “Golpe das Caldas” um mês antes (16 de Março), sucediam-se conversas e zunzuns sobre movimentações.
As palavras da minha mãe espantaram-me o sono das poucas horas dormidas. Recordo-me que tive a intuição que aquele movimento era o início de algo maior. A dúvida que me assaltou foi só uma: se o golpe vinha do sector democrático ou dos ultra conservadores de direita que criticavam a abertura marcelista.
Contra todos os avisos maternos de preocupação, saltei para a rua e fui ver a marcha dos acontecimentos, viver a Revolução.
Foi um dia de emoção total, de loucura completa. Observar as movimentações militares, sentir-me irmanado com um mar de gente que enchia as ruas e largos de Lisboa onde se desenrolavam as principais operações, falar com este e com aquele, partilhar informações sobre o que estava a acontecer... Recordo-me que as pessoas falavam todas umas com as outras mesmo sem se conhecerem. Nunca vou esquecer a alegria esfuziante das populações que adivinhavam naqueles acontecimentos a vitória da Liberdade com que muitos sonhavam, em segredo, há longas décadas.
Alegria e Liberdade são as duas palavras que, para mim, melhor definem o sentimento e espírito daquele dia 25 de Abril, há trinta anos.
Não sei a que horas regressei a casa. Tardias, tenho a certeza.
Mas que interessa as horas?
Era o meu primeiro dia de liberdade....

Publicado por vmar em 12:14 AM | Comentários (5)

25 de Abril – 30 anos





25 de Abril


Publicado por vmar em 12:04 AM | Comentários (1)

abril 24, 2004

Recordar Abril (15)


Liberdade


Publicado por vmar em 07:01 PM | Comentários (0)

Meu menino

Já ninguém estranhava. Desde que o filho morrera em Angola, na guerra, a Ti Custódia desatara a falar sozinha. A toda a hora: enquanto varria as folhas secas da figueira e das trepadeiras no quintal. Na estrada velha a caminho da mercearia do Jonico onde ia comprar pão. Na cerca onde plantava umas batatas e outros legumes para o gasto da casa. Por vezes eram conversas intermináveis, feitas de meias frases, de palavras sem nexo que ninguém entendia. As pessoas passavam e cumprimentavam-na: Como vai, Ti Custódia? Mas ela nem respondia. Absorta no falajar, nem dava pelo cumprimento.

Mas era no meio da Ria, na solidão de gaivotas e caranguejos, curvada sobre o viveiro de amêijoas que limpava, que Ti Custódia soltava, num desespero de gestos e palavras gritadas, a dor imensa que lhe cortava a alma: Volta filho, volta que a mãe morre de saudades de ti...

Cá de cima, encostado ao muro do velho Forte da vila, paredes meias com a igreja, debruçado sobre a Ria Formosa, o guarda-fiscal Matias olhava Ti Custódia e não conseguia deixar de suspirar. Ao contrário do que dizem as pessoas e os livros – pensava -, há coisas que o hábito e o tempo não desvanecem. Coisas boas e coisas más.

Para ele, Matias, era bom olhar a beleza azul-esverdeada da Ria Formosa, as águas mansas espraiadas na maré alta, apertadas na maré baixa, o veludo escuro do chão lodoso à vista.
Havia quase vinte anos que viera para aquele posto e todos os dias se encostava ao muro do Forte e olhava a Ria com os mesmos olhos extasiados da primeira vez: os barcos e bateiras a balouçar, os voos circulares ou picados das gaivotas, as marcas verticais dos viveiros, o labor humano dos homens e mulheres que cuidam da amêijoa em crescimento. Depois os olhos perdiam-se na ilha estreita e comprida, no areal fulvo, na linha densa das copas redondas dos arbustos baixos. E, logo a seguir, no mar. No azul do mar a prolongar-se, em dobra na linha do horizonte, no azul suave do céu. E sobre tudo, e sobre todos, a luz intensa e o quente sol de oiro do Algarve, em reverberações de cal branca e cores garridas.

Mas, para Ti Custódia, a beleza da Ria escoara-se no lodaçal no dia em que soube que o seu menino, a combater lá longe, em África, morrera. Para ela, o tempo não iria curar nunca a ferida e o vazio do filho que lhe fora arrancado. Meu menino! Meu menino...
Ainda por cima, o corpo do filho nunca lhe fora entregue, pensava o guarda-fiscal Matias, a fixar o vulto escuro de Ti Custódia, curvada no viveiro. Muitos voltavam em caixões de chumbo, e as famílias sempre podiam, ao menos, aliviar a mágoa com o funeral e o luto. Mas assim...
E agora, cinco anos depois do telegrama oficial com a trágica notícia da morte do filho, o outro filho da Ti Custódia, o mais novo, estava a um passo de ir para a tropa... e para a guerra no Ultramar, como o irmão.
Pobre Ti Custódia, pobres moços com a vida e a juventude truncadas, que raio de guerra esta!...

*

«Mãe, tenho uma coisa para lhe dizer. É uma coisa muito importante. Uma coisa que a mãe não pode nunca repetir. Nunca, a ninguém, nem à nossa Fatinha, pois a minha irmã ainda é muito nova e estouvada e pode descair-se com alguma palavra.»
Estavam as duas na cozinha, mãe e filha. Era de noite e estavam sozinhas, sentadas a costurar à luz mortiça de candeeiros de petróleo.
A mãe levantou os olhos enrugados para a filha: «Diz, Mariana.»
Mariana ajeitou no colo a peça de roupa que cosia, fixou o envelhecido rosto materno e respirou fundo: «Mãe, o nosso Zé António vai mesmo dar o salto.»
Ti Custódia estremeceu. Tremeu-lhe o corpo e fecharam-se-lhe os olhos. Mas perguntou ainda: «Quando?»
«Não sei, mãe, um mês, dois... Nem o meu irmão sabe a data concreta. Será avisado quase de véspera.»
Ti Custódia curvou-se toda na cadeira baixa, a olhar fixamente o chão, como se procurasse, no entrançado do capacho, alguma inspiração ou força obscura. E acrescentou, passado algum tempo: «É melhor assim. Assim não vai combater. Prefiro sabê-lo vivo, mesmo não o podendo ver nem com ele falar.»
O relógio de parede bateu horas, numa sucessão cadenciada de badaladas, e Mariana disse: «É melhor irmos deitar, que isto faz-se tarde e o petróleo do candeeiro está no fim.»
«Vai tu, filha, que a mim não me serve de nada ir para a cama que não durmo. Vai, Mariana.»
Ti Custódia ficou sozinha, na penumbra da cozinha, acabrunhada entre sombras e pensamentos. Via o filho mais velho. Era tão bonito o seu menino, com aqueles olhos pretos que riam com o brilho de pedras preciosas!... Meu menino, estás sempre vivo no meu coração... E agora o mais novo, com a tropa à espreita... Ah, Deus, que vida esta!... Que pouca sorte que lhe calhara como destino, a desta guerra em África!
Mas logo ouviu, clara e nítida dentro dos próprios pensamentos, a voz firme do filho mais novo: Mãe, não diga que a guerra é pouca sorte do destino, que é fatalidade ou vontade de Deus. A guerra é feita pelos homens. Pelos homens, mãe, e está nas mãos e querer dos homens acabar com a guerra.
Ah, onde teria este menino, vinte anos ainda por fazer, ido buscar estas ideias?... E agora ia fugir à tropa e dizer não à guerra, passar o Guadiana num sítio esconso, pela calada da noite, a esconder-se da GNR e da Guardia Civil espanhola, atravessar a Espanha e chegar a França. À liberdade.
França. Pelo menos tinha lá o cunhado, o marido de Mariana, lá emigrado a ver se ganhava alguma coisa para endireitar a vida. Mas esse fora com papeis legais. E naquela casa ficariam três mulheres e as crianças. Ela, viúva. A filha Mariana longe do marido emigrado há anos. A filha mais nova, a escrever cartas e aerogramas para um namorado que também estava na guerra de África. Que vida, que guerra, que destino...
E o eco das palavras do filho a ressoar-lhe de novo na cabeça, a pôr-lhe em dúvida as ideias: Mãe, a guerra é feita pelos homens. Está nas mãos dos homens acabar com a guerra. Assim como fazem a guerra podem fazer a paz e a concórdia.

*

«Ó mãe, já sabe o que sucedeu?»
«Eu não, filha, mas donde vens tu a sorrir dessa maneira tão alvoroçada?»
«Mãe, houve um golpe, uma Revolução, uma coisas dessas em Lisboa. Feita pelos militares. Foi esta madrugada, mas só à bocado é que me contaram. Olhe, tenho estado a ouvir na rádio e já deram na televisão. Lisboa está cheia de gente nas ruas. E de militares no meio das pessoas. Mas tudo pacífico. E o Marcelo Caetano e o Tomás acabaram de ser detidos e já não governam mais em Portugal. E estão a prender os Pides. Mãe, Portugal está a dar uma volta muito grande, isto está tudo a mudar. Venha comigo ali ao café do Largo ver na televisão. Têm estado a mostrar as pessoas na rua. Sabe o que elas gritam? Liberdade, liberdade! E gritam também: Fim da guerra colonial! Ah, minha mãe, já percebeu o que isso significa? Estou tão feliz, tão feliz!...»

*

De pé, no meio da Ria em baixa-mar, Ti Custódia deu por findo o trabalho desse dia no viveiro. Foi então que avistou o filho. Vinha a descer a falésia em direcção à Ria. Era tão parecido, este seu menino, com o irmão que morrera na guerra... Que lhe quereria ele? Não conseguiu deixar de se assustar. Será desta que sempre vai dar o salto? Será a despedida?
«O que tem, mãe, que está branca como a cal da parede?»
«Ai, filho, vens me dizer o tal adeus?»
«Ó mãe, que ideia... Eu já não preciso de fugir. Os tempos mudaram com a Revolução. A guerra de África vai acabar. Talvez eu já nem vá à tropa... Ó mãe, não vai haver mais fuga, nem salto, nem Ultramar. Sossegue o coração, mãe.»
Então Ti Custódia, com um suspiro fundo, ficou a olhar e a sentir a luz em jorros que enchia a manhã, a vida na Ria feita de murmúrios de moluscos e bivalves, correres apressados de caranguejos, voos e grasnidos de gaivotas, o baloiçar suave de barcos e botes, reflexos translúcidos nas águas calmas, a igreja e o Forte lá no alto, as piteiras e espinheiros na encosta, a ilha dourada pelo sol quente, o azul do céu e o azul do mar e o azul da Ria. E sorriu. Pela primeira vez em cinco anos. Era tão bela, de uma beleza transbordante e divina, a Ria Formosa!

Ana

Publicado por vmar em 03:00 PM | Comentários (2)

abril 23, 2004

«A minha mãe morreu em Julho e só soube em Novembro»

Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal, que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.

« O Tarrafal é uma prisão política que temos de pôr ao lado de Aljube, Peniche, Caxias, Angra do Heroísmo. Não foram só os presos do Tarrafal que sofreram mas sim milhares de antifascistas vítimas das prisões por onde passaram.
Mas o Tarrafal tinha um aspecto mais duro e violento: o isolamento. Os presos estavam meses e meses sem receber correspondência.
Devido a ter participado numa tentativa de fuga colectiva em 2 de Agosto de 1937, a qual falhou por razões imprevisíveis, fui castigado em seis meses sem correspondência. A minha mãe morreu em Julho mas só vim a sabê-lo em Novembro, passados portanto mais de quatro meses.»

«Todos os directores do Tarrafal, embora com características diferentes, tinham algo em comum: todos eram carcereiros e agentes do fascismo. Conheciam as técnicas nazis e usavam-nas.
João da Silva usava uma técnica frequentemente: fazer promessas junto dos presos menos preparados, enquanto paralelamente redobrava a violência junto dos mais firmes.
Todos os directores do Tarrafal procuraram reduzir, com mais ou menos intensidade consoante a situação política nacional e internacional, a capacidade de luta dos presos. Nenhum deles estava interessado em que estes fossem restituídos à liberdade. Todos pretendiam a aniquilação física e política dos homens que torturavam. Mas não o conseguiram

Publicado por vmar em 07:42 PM | Comentários (1)

A “frigideira” e a “brigada brava”

Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal, que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.

«A “frigideira” era um paralelepípedo dividido ao meio, com proporções para conter dois homens. Mas, em caso de grandes castigos, chegavam a meter lá dez.
Como respiradouros existia apenas uma fresta em cima e cinco buraquinhos do tamanho da ponta de um dedo na porta de ferros.
Aquecendo extraordinariamente durante as horas do calor, a “frigideira» arrefecia bruscamente com a cacimba, à noite. Descalços e apenas com o fato de caqui, os presos suavam abundantemente durante o dia e tremiam de frio durante a noite.
A alimentação, nessas alturas de castigo, piorava: em dias alternados os presos comiam pão e água ou um caldo quente onde só raramente bailavam alguns grãos de arroz.
Quando os presos saíam, enfraquecidos, da “frigideira” eram atirados para o trabalho mais violento. Entre esses ficou célebre o trabalho a que o fascista Seixas apelidou de ”brigada brava”, pois excedia em muito a própria violência do trabalho normal. Não era permitido beber água ou urinar senão com autorização dos guardas. A “brigada brava” começou com dezenas de presos mas terminou apenas com dois: eu e António Guerra da greve da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 34.
Para mim este trabalho era um choque não só físico como mental, de tal modo que não conseguia dormir durante a noite, obcecado com a ideia de que no outro dia tinha de voltar ao mesmo.
Quando, negros e encharcados, regressávamos ao campo, os restantes camaradas, solidários, ajudávam-nos em tudo o que o regulamento permitia: lavavam-nos a roupa, guardavam para nós a melhor comida e animavam-nos moralmente

Publicado por vmar em 07:17 PM | Comentários (1)

Tarrafal – Campo de Morte Lenta

Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.

«O campo de concentração era um rectângulo (cerca de 250m por 180) situado num dos sítios mais insalubres do arquipélago de Cabo Verde. Como alojamento existiam umas barracas de lona onde eram metidos cerca de 12 presos em cada uma.
As casas de banho não existiam. Havia apenas uns sanitários – toscos muros de tijolo com uns buracos no chão e umas latas de gasolina para as necessidades.
Como cozinha existia um telheiro com uns muros por onde a poeira entrava aos montes. Dois indígenas faziam a comida. A alimentação era péssima – havia ocasiões em que era necessário pôr bolas de algodão no nariz pois o cheiro da comida impedia que ela entrasse no estômago.
Não havia água potável. Só existia água num poço a cerca de oitocentos metros do campo, água salobra que os presos transportavam em latas de gasolina. Mesmo assim era má e em pequena quantidade, não chegando para a higiene. Tomava-se banho com um único litro de água despejada de uma lata onde eram feitos uns buracos para o efeito

«O primeiro director do Tarrafal foi Manuel Martins dos Reis, capitão gatuno e paranóico, vindo da Fortaleza de Angra do Heroísmo. Este director “entretinha-se” a roubar as coisas que os familiares dos presos, com sacrifício, mandavam, desculpando-se que tudo aquilo era enviado pelo Socorro da Marinha Internacional. Chegou mesmo a montar uma pseudo cantina onde vendia as coisas roubadas.
Mal desembarcámos começámos imediatamente a trabalhar. Transportávamos pedras, sob vigilância constante dos guardas.
Em Cabo Verde, região de clima variável, calhou chover bastante nesses anos. A lona das barracas apodreceu de tal maneira que lá dentro chovia como na rua e de manhã acordávamos com a cara negra da poeira que se pegava à humidade que sobre nós caía.
As águas acumuladas formavam pântanos onde se desenvolviam mosquitos transmissores do paludismo. A saúde de todos nós, presos, arruinava-se.
Caíamos atacados da doença chamada biliose. Sem fornecimento de medicamentos e com um médico que era um patife da pior espécie, em poucos dias morreram sete camaradas. Em cerca de uma média de 200 presos era vulgar, em certas alturas, apenas dez andarem a pé

«Os escândalos da actuação do primeiro director levaram à demissão deste. Foi substituído por João da Silva, acompanhado pelo fascista Seixas.
Estávamos em 1938/39. A guerra civil espanhola terminava com a vitória do fascismo. O ditador português Salazar tinha contribuído, apoiando com o envio de géneros alimentícios e de homens, os quais ficaram conhecidos pelos Viriatos. Hitler tinha subido ao poder em 1933. Na Itália existia Mussolini. A situação no campo do Tarrafal, reflexo da situação política internacional caracterizada pela ascensão do fascismo, agrava-se terrivelmente.
João da Silva dizia frequentemente: “Quem está aqui é para morrer!”
Com este director começou a funcionar sistematicamente a célebre tortura conhecida por “frigideira”. Todos os dias eram para lá atirados presos e eu também por lá passei algumas vezes

Publicado por vmar em 06:38 PM | Comentários (0)

Dezasseis anos e três meses no Tarrafal

«Falar do Tarrafal ou de outras prisões fascistas não deve ser uma simples evocação daquilo que por lá passámos. Ao falar do Tarrafal e das outras prisões importa, em primeiro lugar, saber que elas existiram porque existiu o fascismo. Elas são uma consequência directa do regime de terror que durante 48 anos massacrou o nosso povo e colocou o nosso país na cauda das nações civilizadas.»
«Eu e todos os ex-presos do Tarrafal sentimos profunda indignação quando deparamos com a data gloriosa do 25 de Abril a sofrer os maiores insultos.»

Estas palavras são de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal.
Escutei-as em 1978 e ficaram-me na memória e no registo de um longo depoimento sobre o “Campo da Morte Lenta”, nome por que ficou conhecido o Campo de Concentração do Tarrafal. O depoimento foi publicado, nesse ano, no jornal “Batalha Vertical”, do Sindicato da Indústria e Comércio Farmacêutico, de que João Faria Borda era então sócio, por trabalhar numa empresa desse sector.

Agora que alguns senhores se “lembraram” de comemorar os 30 anos da Revolução de Abril sem o R, numa tentativa de branqueamento do regime que vigorou em Portugal durante 48 anos; hoje, dia 23 de Abril, data da criação oficial do tenebroso Campo de Concentração do Tarrafal, em 1936, lembrei-me das palavras de João Faria Borda, com quem conversei várias vezes, e do referido depoimento.

Aqui e nos posts seguintes ficam algumas passagens do depoimento (é muito longo) e a minha singela homenagem a um resistente anti-fascista que toda a vida lutou pela Liberdade.

Ana

Quem foi Faria Borda

João Faria Borda, natural de Alcobaça, filho de um camponês, nasceu a 18 de Novembro de 1912.
Em 1932, então com 20 anos de idade, assentou praça na Armada, onde desenvolveu diversa actividade política.
Como dirigente da ORA – Organização dos Revolucionários da Armada – participou, juntamente com outros anti-fascistas, na revolta dos navios de guerra «Bartolomeu Dias», «Afonso de Albuquerque» e «Dão», em Setembro de 1936, naquela que ficou conhecida como «A Revolta dos Marinheiro».
Em consequência dessa participação, depois de julgado em tribunal militar especial para crimes de natureza política e porque no tribunal assumiu a responsabilidade pela acção revolucionária praticada, foi condenado a vinte anos de prisão.
Esteve uns dias na Penitenciária e foi, de seguida, enviado para o Tarrafal (tinha 23 anos), onde chegou a 29 de Outubro de 1936, com outros presos, entre eles nomes como Bento Gonçalves, secretário do Partido Comunista, Mário Castelhano, anarquista, Alfredo Caldeira, do Comité Central do PCP, e tantos outros.
Faria Borda permaneceu dezasseis anos e três meses no campo de concentração. Depois de ter passado ainda mais um ano na cadeia de Peniche foi restituído à liberdade. Tinha então 41 anos de idade!
Voltou ainda a ser preso em 1959/60 por actividade cooperativa.

Publicado por vmar em 05:14 PM | Comentários (3)

Recordar Abril (14)


A Liberdade veio com o MFA


Publicado por vmar em 12:14 PM | Comentários (0)

Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas

Núcleo Museológico do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas

O Município de Odivelas em colaboração com o Regimento de Engenharia N.º 1 (Pontinha) inaugurou, a 25 de Abril de 2001, o Núcleo Museológico do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas.

Este núcleo está localizado nas instalações do Quartel da Pontinha onde, de 24 a 26 de Abril de 1974, estiveram reunidos os oficiais que comandaram todas as operações da Revolução do 25 de Abril. Através da dignificação deste espaço e da criação de condições de apoio aos visitantes, procura- se não apenas a valorização do local, mas principalmente a sua divulgação junto do público escolar e de todos aqueles que manifestem interesse pelos acontecimentos que marcaram a história do nosso país.
Tendo em conta que foi neste local que o MFA comandou as operações, sofreu nos momentos de incerteza, prendeu o paladino do regime, reuniu a Junta de Salvação Nacional, ordenou a libertação dos presos políticos, redigiu a maioria dos comunicados à imprensa, percebeu, finalmente, que o movimento tinha triunfado, pretende-se que na sala de operações, mantida tal como estava por ocasião do 25 de Abril de 1974, os visitantes sejam transportados para esse tempo e percebam a importância dos acontecimentos que ali tiveram lugar.

O núcleo apresenta diversos espaços:

Sala de exposição permanente: Trata-se de uma visita aos acontecimentos mais importantes do 25 de Abril, organizada cronologicamente entre as 22h00 do dia 24 e as 8h15 do dia 26. Começa pelo funcionamento do Posto de Comando na noite de 24, podendo observar-se a sucessão dos momentos decisivos do dia 25 até à queda do regime, e termina com a primeira conferência de imprensa da Junta de Salvação Nacional, no Regimento de Engenharia N.º 1, na manhã de 26 de Abril.


Sala de exposições temáticas temporárias: Neste espaço são apresentadas exposições temporárias com temas relacionados com a revolução de Abril, a sua época, objectos e acontecimentos.




Sala do Posto de Comando: Esta é a sala onde esteve instalado o Posto de Comando, com mobiliário, telefones, rádio, mapas e todas as características que tinha em 25 de Abril de 1974. Nela, está exposta uma das figuras de cera dos sete militares que ali comandaram as operações: o capitão Luís de Macedo, do Regimento de Engenharia N.º 1.


Sala de Imagens do Posto de Comando: Nesta sala podemos visionar imagens de reconstituição do funcionamento do Posto de Comando, retiradas do filme da SIC “A Hora da Liberdade” e imagens da reportagem da RTP durante a conferência de imprensa de 26 de Abril de 1974, dada pela Junta de Salvação Nacional no Regimento de Engenharia N.º 1.


Auditório: este espaço, com capacidade para 70 pessoas e equipado com modernos meios audiovisuais, está preparado para a realização de debates, conferências, encontros e pequenos espectáculos relacionados com a temática do Núcleo Museológico. Neste auditório também pode ser visionado um pequeno filme em formato vídeo sobre os acontecimentos de 1974.
Neste auditório decorre ainda a iniciativa “O dia 25 no Posto de Comando”, que teve o seu início em Fevereiro de 2003, e para o qual são convidadas entidades ou individualidades de diversos quadrantes da sociedade portuguesa, que falam com os alunos do Concelho de Odivelas sobre a importância do acontecimento para a sua vida e profissão.
Estiveram já presentes neste importante evento o Sr. Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio; o actor Morais e Castro; o escritor José Jorge Letria; e o Dr. Mário Soares.

Localização:
Quartel do Regimento de Engenharia n.º 1
Av. do Regimento de Engenharia n.º 1 - 1675-103 Pontinha

Pode ser visitado no seguinte horário:
- 4ª feira: 10h00 às 12h30
- 6ª feira: 14h30 às 17h30

Marcação de visitas e informações:
- 4º Domingo de cada mês: das 15h00 às 17h00

Sector de Museus e Núcleos Museológicos
Tel.: 21 934 61 00 - Fax: 21 934 61 98.
Junta de Freguesia da Pontinha, Tel.: 21 478 72 80

Publicado por vmar em 12:44 AM | Comentários (2)

Conversas sobre o 25 de Abril

Com o vereador da Câmara de Odivelas, Carlos Lourenço, que à data era militar no quartel da Pontinha.
(excerto de um artigo publicado no “Jornal de Odivelas” a 22 de Abril de 2004, assinada por Patrícia Cardoso Fonseca)

A 25 de Abril de 1974 rompe a aurora de um novo Portugal que se queria Democrático, Desenvolvido e Livre. Nada fazia prever o golpe das Forças Armadas que nasce, curiosamente, no agora concelho de Odivelas. Mais precisamente no posto de Comando do Regimento de Engenharia n.º 1 da Pontinha. E tudo fazia antever uma revolta, dado o clima de saturação que a população exalava.
Trinta anos depois, fizemos um percurso pelas datas mais marcantes no antes, durante e após a Revolução dos Cravos. Carlos Lourenço, vereador do Departamento Sociocultural da Câmara de Odivelas, fez connosco este percurso.

1973 – Maio
Protesto dos militares à tentativa de apoio das Forças Armadas ao governo por parte do Congresso dos Combatentes a realizar de 1 a 3 de Junho.

1 de Junho
Início do 1º Congresso dos Combatentes do Ultramar, no Porto, que mereceu a oposição do Movimento dos Capitães.

21 de Agosto
Primeira reunião clandestina de capitães em Bissau.

28 de Agosto
Eleição da 1ª Comissão do Movimento dos Capitães, constituída pelos Capitães Almeida Coimbra, Matos Gomes, Duran Clement e António Caetano.

9 de Setembro
Nasce o MFA na 1ª reunião plenária clandestina dos capitães.

6 de Outubro
Reunião quadripartida do MFA sendo um dos locais a casa do Capitão Antero Ribeiro da Silva, em Odivelas.

Jornal de Odivelas – Que reunião foi esta em Odivelas?
Carlos Lourenço – Foi uma reunião preparatória, já muito próximo do 25 de Abril, mas ainda em 73, a 6 de Outubro. O Movimento das Forças Armadas fez uma reunião em quatro locais diferentes, por questões de segurança, e uma delas foi em Odivelas na Av. Professor Dr. Augusto Abreu Lopes, no número 24, 2º esquerdo, onde residia na altura o Capitão do MFA, Ribeiro da Silva. E dessa reunião, em que esteve presente o Capitão Vasco Lourenço, terão saído decisões importantes. Portanto, Odivelas também teve um grande contributo nesta Revolução, ainda sem sequer se sonhar o que estava em curso. No local, hoje está colocada uma placa junto ao número 24 onde se assinala essa primeira reunião. Isto é um pormenor desconhecido de muita gente. Odivelas, tem, realmente, uma história importantíssima e relevante em termos de país e isso remonta ao século XII / XIV, desde logo com a construção do Mosteiro de Odivelas e o que ele representou para a corte portuguesa ao longo de vários anos. O nosso concelho é um marco da História do país e da História recente de Portugal e da Democracia Portuguesa.

23 de Outubro
Circular clandestina faz um ponto da situação.

24 de Novembro
Reunião plenária, na Parede, onde o tenente-coronel Banazol defende, pela primeira vez, a tese de golpe militar.

1 de Dezembro
Reunião plenária, em Óbidos, onde votam três teses alternativas: golpe militar; continuação da luta contra os decretos de lei 353/73 e 409/73 sobre o estatuto dos capitães, com perspectivas de passar a golpe e continuação da luta legalista contra os decretos. É aprovada a última hipótese, mas a tese de golpe militar ganha apoios e elege-se, pela primeira vez, uma Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães.

1974 – 22 de Fevereiro
Publicação do livro “Portugal e o Futuro”, do General Spínola, que abalou o regime e, em particular, Marcello Caetano.

5 de Março
Reunião de cerca de 200 oficiais dos três ramos das Forças Armadas. Pela primeira vez fala-se da possibilidade do fim da guerra colonial e no derrube da ditadura. É aprovado o documento “O Movimento das Forças Armadas e a Nação”.

8 de Março
O governo transfere alguns dos Capitães de Abril para outros postos de forma a enfraquecer o Movimento. Os capitães são raptados e escondidos pelo Movimento na altura do embarque de alguns para as ilhas.

24 de Abril
Prepara-se o golpe no Posto de Comando do MFA, no Regimento de Engenharia n.º 1 da Pontinha.
P – Na Pontinha concentrou-se um movimento que marcou a História Moderna. Como é que o agora concelho de Odivelas viveu esse dia?
R – No 25 de Abril eu era militar e, sendo da Pontinha, tive oportunidade de assistir a toda a movimentação em torno do Regimento de Engenharia n.º 1, do aparato de cortes de ruas, a população da Pontinha já não saiu de manhã para os empregos, e, ao fim do dia, já a população assistiu a todo o movimento, nomeadamente, recordo que o Prof. Marcello Caetano, quando veio do Carmo, passou essa noite de 25 para 26 no Regimento. Obviamente que ao que pude assistir foi aquela satisfação generalizada e espontânea da população que, com a sua adesão ao movimento, contribuiu decisivamente para que a Revolução também fosse um êxito e que as acções do movimento fossem irreversíveis.

25 de Abril
Dá-se a Revolução dos Cravos.

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abril 22, 2004

Abril: dois marcos na minha vida

Neste mês de Abril comemoro dois acontecimentos que marcaram a minha vida (e da Ana também).
Um é a Revolução de 25 de Abril que, dentro de três dias, faz trinta anos.
O outro... Bem, o outro é mais particular. Mas, para mim, foi o acontecimento mais importante da minha vida: o nascimento do meu filho, há vinte e um anos, mais ou menos por estas horas.
Chamem-me o que quiserem: vaidoso, piroso, baboso...
Mas, conseguindo vencer o impulso de me pôr para aqui a debitar adjectivos às qualidades do meu filho, não consegui mesmo resistir a pôr uma foto. Não é das primeiras, tiradas poucos dias a seguir ao nascimento, porque, onde estou neste momento, não me estão acessíveis. Fica esta, já tinha uns seis meses, e uma simples frase:


Parabéns Luís


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A Liberdade de expressão

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abril 21, 2004

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Em Liberdade, os trabalhadores avançam

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abril 20, 2004

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As crianças e a Liberdade

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abril 19, 2004

Boicote à aula

Meses antes da Revolução que pôs termo à ditadura em Portugal, a Faculdade de Direito de Lisboa estava a ferro e fogo (como muitas outras na Universidade, o Técnico, por exemplo): Greves, boicotes às aulas, polícia, identificação de estudantes, meetings feitos à pressa a incitar à greve geral contra os chumbos e o sistema de ensino, reuniões de alunos interrompidas pelas matracas dos gorilas, prisões e espancamentos de alunos.
Os primeiros dias na Faculdade para os caloiros – especialmente os que, como eu, jovens e despolitizados, vinham de um Liceu na pasmaceira da província – eram feitos de espantos e curiosidades irreprimíveis perante tal ambiente.
Junto à mata densa que, nessa época, rodeava a Cidade Universitária havia sempre várias carrinhas azul-escuro estacionadas. Era a polícia de choque. O poiso preferido deles era por detrás da Faculdade de Letras, meio escondidos entre o arvoredo. De longe avistávamos os polícias e o brilho metálico dos cassetetes presos à cintura. Passavam ali os dias à espera de serem chamados, ao mínimo sinal de agitação dos estudantes, e irem a correr para as faculdades bater e prender os alunos suspeitos ou revoltosos.

À entrada de Direito, no cimo da escadaria, entre os portões envidraçados, passeavam-se sempre alguns gorilas, polícias-vigilantes à paisana que guardavam as faculdades e pediam a identificação aos alunos. Mostrávamos o cartão sem os olhar. Era a nossa forma de protesto. De resto, o fanfarrão exibicionismo dos corpos avantajados, as mangas arregaçadas em pleno inverno, o riso sarcástico e um não sei quê de emporcalhado e torpe nas caras de todos eles, levavam-nos instintivamente a baixar os olhos, sempre que passávamos perto.
Os gorilas tinham sido colocados nas faculdades pela PIDE-DGS, a polícia política do Estado, para espiar e denunciar os estudantes contestatários e reprimir, à bastonada e ao pontapé, se necessário, as manifestações subversivas. E, de facto, era isso que acontecia.
Direito tinha sido transformada em quartel-general e as instalações associativas confiscadas aos estudantes e ocupadas. Sabia-se que os gorilas passavam os dias a emborcar cerveja, ouvir rádio e jogar às cartas em altos berros. Às salas de aula e anfiteatros, nos andares superiores, chegavam as risadas e os gritos estridentes que atiravam uns aos outros.
Gorilas!... Quem lhe tinha posto o nome fizera-o num momento de inspiração. Famoso era o King-Kong, notório pela descomunal largura de ombros. Tinha sido estrela de cinema, Tarzan num qualquer filme de terceira classe, e apreciava sobremaneira mulheres com pêlos nas pernas, confessara, em entrevista, numa revista de actualidades que circulara de mão em mão e de aula para aula, para divertimento dos estudantes.

Um dia, no início do ano lectivo, estava sentada num recanto a conversar com uma amiga. Acercou-se de nós um colega e disse-nos, muito rapidamente, quase a falar-nos ao ouvido: Amanhã não faltem à aula de Economia Política. É importante. Vamos boicotar a aula do Martinez.
Que iria acontecer?, interrogamo-nos, a olhar uma para a outra, o coração em sobressalto.
Não faltamos à aula, claro. Ainda por cima detestávamos o cínico do professor, Director da Faculdade, que chumbava mais de oitenta por cento dos alunos. Corriam histórias sobre as orais onde o Martinez fazia as mais disparatadas e absurdas perguntas aos alunos – em que ano foi criado o Instituto Nacional de Estatística, quem esteve no funeral de Hugo Grócio, onde estão os restos mortais de Francisco Suarez, qual o número exacto de bordadeiras da ilha da Madeira.... Os alunos exorcizavam os rancores ridicularizando o conteúdo do manual, da autoria do próprio Martinez, apontando a dedo algumas passagens “iluminadas”. Uma das mais gozadas analisava a quebra de natalidade na raça branca e concluía: “...Dir-se-ia que, cansado de civilização, esgotado por um esforço de aperfeiçoamento de alguns milénios, o homem branco se recusa a realizar a sua missão de perpetuar a própria espécie.”
“Ó pá, ainda por cima, um gajo bem pode marrar a porcaria do manual de uma ponta à outra, pá, que o facho do Martinez, se lhe der na mona, trama-nos à mesma”, queixavam-se os colegas dos anos mais adiantados mas ainda com Economia, do primeiro ano, por fazer. Especialmente os rapazes, que andavam à rasca, a contabilizar os chumbos, as cadeiras em atraso, a perspectiva de lhes ser negado mais um adiamento militar e a ida para a tropa e para a guerra em África a aproximar-se em velocidade vertiginosa.

No dia do planeado boicote à aula de Economia Política, o anfiteatro estava cheio, a abarrotar. Até nos espaços laterais havia estudantes, de pé. O Professor Martinez entrou na sala, sentou-se à secretária, engravatado e superior, distante e solene. Levantou os olhos para o anfiteatro cheio em peso, fixou-os, austero, sobre a massa agitada dos estudantes e começou, devagar e com sílabas vincadas, a discursar sobre a matéria da aula.
Não demorou muito a fazer-se ouvir o som do matraquear de dedos nos tampos das carteiras. A princípio tudo se resumiu a batidas dispersas, subindo progressivamente, num crescendo ritmado que se sobrepôs à voz do professor.
Apanhado de surpresa, o catedrático levantou-se da cadeira e o barulho cessou por instantes breves.
“Abaixo a selecção burguesa”, atirou alguém no meio do anfiteatro. “Fascista”, acrescentou outra voz, aguda. “Nazi!...”, rosnavam os alunos.
De pé, as mãos hirtas sobre a secretária, o rosto congestionado, o professor fixava o anfiteatro. As palavras saíam-lhe apertadas: "Meus senhores..." Mas o matraquear de dedos recomeçou, mais intenso ainda, de mistura com o bater de sapatos no chão, e abafou-lhe a voz. Era uma sinfonia enraivecida. Os sons secos dos dedos que batiam alternavam com as vibrações pesadas dos pés que pateavam, de mistura com pancadas dispersas dadas por mãos abertas nos tampos das carteiras.
Os gorilas irromperam pelo anfiteatro de roldão, por ambas as portas, quatro e cinco de cada lado, e colocaram-se à frente da secretária do professor, em guarda, de pernas abertas, braços inchados, matracas nas mãos, a medirem os estudantes com os olhos. O catedrático, com um sorriso simuladamente calmo, disse qualquer coisa do género: “Os senhores que desejam assistir civilizadamente à aula façam favor de ficar. Os restantes, agradeço que se retirem. Eu espero... lá fora.”
Saiu vaiado por um coro de assobios agudos. Alguns gorilas subiram os primeiros degraus do anfiteatro, o peito tenso e as matracas a dançar, e muitos estudantes desataram a sair, empurrando-se uns aos outros. Um aluno pôs os braços no ar e pediu: "Colegas... vamos sair todos com calma." Um gorila fixou-o ameaçador e ele ripostou: "Estou só a pedir calma." Voltou-se para a turma, à direita e à esquerda e repetiu: "Colegas, vamos sair todos. Que não fique cá nenhum. Que não fique cá ninguém."
Não foi fácil atravessar a barreira compacta de estudantes que se amontoavam à porta do anfiteatro. Todos queriam sair mas todos queriam continuar a espreitar lá para dentro. Já estava do lado de fora quando se espalhou a notícia que os gorilas tinham desatado a bater e um estudante já estava ferido e a sangrar na cabeça com um golpe de matraca. Um grito tremendo irrompeu no burburinho agitado e ecoou pelos corredores da Faculdade: "Fim da guerra colonial. Independência às colónias".
Foi como uma onda avassaladora. Respondemos em coro, a uma só voz, em compasso repetido: "Fim da guerra colonial! Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al. Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al..."
A partir daí tudo ganhou velocidade. Os gorilas enraivecidos atirados aos estudantes, aos socos por tudo quanto era gente e sem olharem a quem. Gritos cruzados no ar, empurrões, encontrões, livros e cadernos espalhados pelo chão. Estudantes em fuga, cada um para seu lado, pelos corredores laterais, escadas abaixo e escadas acima, em direcção à saída ou ao refúgio das casas de banho, lá ao fundo. E um corpo compacto de polícias, fardados e com bastões, a entrar, em passo rápido e militar, pelo portão principal da Faculdade.

Ana

Nota: O Prof. Martinez foi saneado com o 25 de Abril. Alguns anos mais tarde voltou à Faculdade. Igual ao que sempre foi, ao que consta.

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Recordar Abril (10)

Pela Liberdade, contra o fascismo


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abril 18, 2004

Recordar Abril (9)

Em Liberdade a participação começou


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Moral e Bons Costumes – o biquini

Num país com um regime político que obrigava as professoras primárias a pedir autorização ao governo para casar, não é de espantar que, em Portugal, nos tempos da ditadura que terminou com a Revolução de 25 de Abril, a indumentária das pessoas fosse regulamentada, não sendo permitidos certos modelos considerados “ousados”. Tudo em nome da moral e dos bons costumes. Ou, como justificava um Decreto-Lei de 1941, relativo aos modelos de fato de banho, para “salvaguarda daquele mínimo de condições de decência que as concepções morais e mesmo estéticas dos povos civilizados ainda, felizmente, não dispensam”.
Afixadas em editais pelas capitanias, as regras para os modelos de fato de banho permitidos eram as seguintes:
Para senhora, “fato inteiro com saia por cima, com decote sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido nas axilas”.
Para homem, “camisola e calção com corte inteiro, justo à perna e reforço interno da parte da frente, e justo à cintura cobrindo o ventre”.
As regras que impunham “decência” no vestuário continuaram legalmente em vigor por muitos anos. Mas, com o correr dos tempos, na prática foram cada vez mais sendo postas em causa e não aplicadas. Para isso muito contribuiu o turismo que, na década de sessenta, começou a procurar o nosso país como local de veraneio. Especialmente o Algarve onde, todos os anos e cada vez mais, apareciam ingleses, franceses, holandeses e alguns alemães... com indumentárias muito ousadas para os nossos padrões e costumes.
Era a época da mini-saia e do biquini para as raparigas, das longas e despenteadas cabeleiras para os rapazes. E se muito boa gente, neste nosso isolado Portugal, se escandalizava com a “pouca-vergonha” das vestimentas dos estrangeiros, muitos, especialmente a juventude, adoptavam alegremente as novas modas, com grande escândalo das almas conservadoras.
Os meus sogros, que são algarvios, ainda hoje contam um caso, ocorrido nos primeiros anos da década de sessenta, numa praia da zona. Se é verídico ou anedota não sei.
Contam eles que por lá apareceram umas inglesas, talvez das primeiras estrangeiras que arribaram àquelas paragens. Vestidas com biquinis numa praia onde todas as senhoras e raparigas ainda só usavam fato-de-banho, eram alvo de todos os olhares, muitos deles críticos. Então o “cabo do mar” foi falar com elas, tentando, com a meia dúzia de palavras em inglês que sabia, explicar-lhes que ali, naquela praia, só era permitido usar fato-de-banho de uma peça. Só uma peça, uma só, tentava o pobre homem explicar. Então as inglesas, divertidíssimas, disseram que sim, tinham compreendido, só não sabiam era qual das duas peças por elas usadas era para tirar, a de cima ou a de baixo.

Publicado por vmar em 12:21 AM | Comentários (5)

abril 17, 2004

Licença de Isqueiro

Sabiam que, no Portugal Salazarista (especificamente entre 1937 e 1970), para ter um isqueiro era preciso ter licença de uso?
Pois era! E, pelo menos em Lisboa, actuavam diversos “caçadores de multas” a tentar apanhar todos aqueles que acendiam o isqueirozito e não eram portadores da respectiva licença.
O decreto que regulamentava tal medida era o Decreto-lei n.º 28 219 de Novembro de 1937. Foi abolido em Maio de 1970.
Quanto ao regime político que criou leis tão extraordinárias como a licença de isqueiro, foi abolido a 25 de Abril de 1974.

Publicado por vmar em 10:23 PM | Comentários (2)

Moral e Bons Costumes – A “postura”

Portugal, nos tempos da ditadura, a que a Revolução de Abril pôs termo, não era só um país pobre e repressivo. Era também um país fechado, triste, bafiento, com uma moral castradora, que algumas leis e regulamentos, de um ridículo atroz, procuravam enquadrar.
Famosa ficou a postura da Câmara Municipal de Lisboa, em vigor desde 1953. Dirigida aos polícias e aos guardas-florestais, especificava os crimes e multas em que incorriam todas aquelas pessoas que procuravam “frondosas vegetações para a prática de actos que atentem contra a moral e os bons costumes.”
A seguir, especificava os actos e respectivas multas a aplicar pelos polícias e guardas-florestais:

1º - Mão na mão (2$50);
2º - Mão naquilo (15$00);
3º - Aquilo na mão (30$00);
4º - Aquilo naquilo (50$00);
5º - Aquilo atrás daquilo (100$00);
§ único - Com a língua naquilo (150$00 de multa, preso e fotografado).

Publicado por vmar em 10:19 PM | Comentários (2)

Recordar Abril (8)

A Liberdade chegou em Abril


Publicado por vmar em 08:27 PM | Comentários (0)

abril 16, 2004

Elos escondidos

Muitas coisas já se contaram sobre o 25 de Abril e muitas ficarão, para sempre, por contar.
Pequenos nadas. Por pouco importante que tenham sido, foram elos de uma corrente.
Há lugares e gentes que, no anonimato, foram um elo de Abril. Poucos os conhecem, ficaram na penumbra da história da Revolução.
Arrancando um desses pequenos elos à penumbra, aqui fica um lugar que albergou, um dia, aqueles que, a 25 de Abril, nos libertaram.















Prédio nº 24 da Av. Augusto Abreu Lopes, em Odivelas.






Publicado por vmar em 11:28 PM | Comentários (1)

O último discurso

A propósito de ditadores e aproveitando ser hoje o dia que seria de aniversário para Charles Chaplin, se fosse vivo, e numa altura em andamos a recordar o mês da liberdade, pareceu-me oportuno publicar aqui um discurso que ficou na história: o de Chaplin em “O Grande Ditador”.

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores libertam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo das trevas para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Publicado por vmar em 10:54 PM | Comentários (4)

Aqui, para governar, um safanão a tempo é quanto basta

A policia política (PIDE) e os métodos de obter informações (tortura) a todos aqueles que se opunham ao regime foram expoentes da governação Salazarista. Publica-se aqui um extracto de uma biografia de António de Oliveira Salazar (1889-1970). O pensamento de Salazar é colocado na primeira pessoa pela ficção de Fernando Correia da Silva. A política levada a cabo pelo pequeno “Grande Ditador” português, mergulhou o nosso país numa longa noite de quatro décadas. Objecto de contestação dos mais variados sectores, caiu pela acção do MFA, na madrugada de 25 de Abril de 1974.

«....Os grandes homens, os predestinados, os grandes chefes, não se embaraçam com preconceitos, com fórmulas, com preocupações de moral política. A violência pode ter vantagens mas não na nossa raça nem nos nossos hábitos. Em Portugal não há homens sistematicamente violentos. Aqui, há que governar tendo sempre em conta esse sentimentalismo doentio a que chamamos bondade. Para defender a Pátria, aqui não é preciso usar da violência. Um safanão a tempo é quanto basta.

Nas revistas e nos jornais e nas emissoras radiofónicas e nos teatros e nos cinemas, o lápis azul e a tesoura da Censura prévia cortam os textos e as imagens fora de prumo, há regras a cumprir, safanão a tempo. Nas livrarias, a polícia apreende os livros subversivos, há regras a cumprir, safanão a tempo.
Se abandonados à liberdade, os homens logo se convertem em libertinos. Reforço a proibição das greves e em 1933 fundo a PVDE - Polícia de Vigilância e Defesa do Estado. Agentes italianos e depois uns alemães, com as suas técnicas, virão ajudar-nos a torná-la mais eficaz. Rapidamente a PVDE estende uma rede de informadores de norte a sul da Nação, nas cidades, nas vilas e até em aldeias. É fácil, muita gente ambiciona ganhar mais uns tostões.

A função primeira da PVDE é prevenir as tentações de libertinagem, é intimidar não só os ímpios e os incautos à beira da impiedade, mas também os respectivos pais, e cônjuge, e filhos, e irmãos, e colegas, e amigos, todos os que estejam em perigo de contágio. Subversão é peste, há que meter a Nação em quarentena. E meto, mas alguns escapam, danados que tentam danar os outros, cães raivosos.
Reorganizo as forças militarizadas, a GNR - Guarda Nacional Republicana, a PSP - Polícia de Segurança Pública, e a Guarda Fiscal. E chamo ao meu gabinete, primeiro o Agostinho Lourenço, director da PVDE; mais tarde o Silva Pais, director da PIDE. Alerto:
- Mais vale um safanão a tempo do que deixar o Diabo à solta no meio do povo.

Contam-me como fazem. Localizam onde pousa um dos suspeitos. A meio da noite arrombam a porta, dão-lhe voz de prisão e uns sopapos, arrastam-no para a sede, interrogatório, safanão primeiro. Se o subversivo conta o que sabe, é porque já está a caminho da salvação. Se não fala, safanão segundo, espancamento. Se calado continua, safanão terceiro, é a penitência da estátua, dias e noites obrigado a ficar sempre de pé, até que as suas pernas se transformem em dois trambolhos. Variante do terceiro safanão é a penitência do sono, dias e noites sem dormir; quando cabeceia, logo acendem um holofote contra os seus olhos. Um dos possessos, ao fim de quinze dias e quinze noites sem dormir, começou a beijar a parede, alucinações, pensava que estava na cama com a mulher. Depois entrou em coma. Normalmente, depois do terceiro safanão, os inconfessos entram em coma. Ninguém os mata, eles é que se deixam morrer porque se negam à salvação.

Alguns sobrevivem ao terceiro safanão, mas nada mais podemos fazer por eles, almas penadas já são em vida. Com ou sem julgamento são despejados em masmorras. Em 1936 inauguro as colónias penais do Tarrafal e de Peniche. É no Tarrafal que vai morrer Bento Gonçalves, secretário do Partido Comunista. Outros seguem-lhe o exemplo; no Tarrafal e em Peniche, no Aljube e em Caxias.

Não, não é preciso usar da violência, somos um povo de brandos costumes. Aqui, para governar, um safanão a tempo é quanto basta....»

Publicado por vmar em 08:42 PM | Comentários (6)

abril 15, 2004

O lápis azul da censura





“Filopópulus”: o que a censura cortava eram os trechos que se referiam à guerra, à ordem, ao poder absoluto. Durante os espectáculos o Grupo não respeitou os cortes.












O Grupo de Teatro de Campolide, amador na origem, tornar-se-ia anos mais tarde na Companhia de Teatro de Almada




Um ofício da PSP, proibindo colóquios, inclusive nos ensaios.....

«....E é preciso não o esquecer. Não esquecer os vexames, as humilhações sem conta a que os autores, actores, encenadores e espectadores foram sistematicamente submetidos durante esses negros anos, o triste rol das proibições, mutilações, sanções, etc., que retalharam e conspurcaram o nosso património dramatúrgico e a prática do teatro entre nós, sem que até hoje nenhumas contas hajam sido exigidas aos responsáveis por todos esses crimes contra a inteligência e a cultura. Ou será que também a censura não existiu, como já se procura sustentar por aí que o fascismo não existiu?.....»

por Luís Francisco Rebello, em Maio de 1979, no nº2 da Revista de Teatro do Grupo de Campolide

Publicado por vmar em 08:32 PM | Comentários (1)

Aqui o teatro resistia

No dia 27 de Março de 1974 (a menos de um mês do 25 de Abril) comemorou-se mais um Dia Mundial de Teatro.
Eram tempos difíceis. A Pide espreitava a cada esquina, escutava tudo o que podia. O lápis azul cortava à menor suspeita de contestação.
Mas o teatro resistia como podia, e resistiu muito.
O texto que se segue acompanhava o verso dos folhetos comemorativos do Dia Mundial de Teatro pelo Grupo de Teatro de Campolide. Chama-se a atenção que grande parte da mensagem tem de ser lida nas entrelinhas, pois só escrevendo de uma forma dissimulada se escapava à censura nessa noite longa do fascismo.

27 de Março de 1974


Atravessamos maus tempos. Aqui mesmo, nesta sala improvisada teatro, onde a mágica se repete todos os dias, não se pode dizer que cheguem os ecos do mundo. Porque é o mundo, presente em todos nós, que todos os dias entra pela porta dentro. É ele que enche esta sala.

Quando a presença da vida é tão avassaladora, que lugar reservaremos ao teatro? Que pode o teatro fazer? Quando as inquietações do tempo presente são de tal modo que à consciência de cada um se impõe o dever de uma intervenção diferente daquela que o teatro propõe, continuaremos a fazer teatro?

Sim. Continuaremos. Porque, sobretudo nos maus tempos que correm, a palavra teatro, insubstituível, não pode ser abandonada. Se o objectivo do nosso teatro é reflectir a realidade em transformação, que ele se não demita no tempo em que mais vozes são necessárias para a grande cadeia da solidariedade. Que ele, este nosso teatro, assuma ainda mais nobremente, ainda mais eficazmente, a voz colectiva – mesmo que essa voz seja apenas um fio que mal se ouve, e sobretudo se o for.


Senhores: temos problemas. Alguns de nós partirão dentro em breve. A outros, que entretanto crescerem, escasseará a vontade. Outros deixar-se-ão tomar pela angústia do tempo. E sobre estas dificuldades amontoam-se as armadilhas que cada um por si próprio vai preparando. E aquelas que pelos muitos séculos nos têm sido preparadas.

Poder-se-ia ainda falar no cansaço – mas o pudor deve impedir-nos a fadiga.

Nestas circunstâncias (não queremos esconder-vos a verdade) deveis acreditar em nós quando dizemos:

Aqui – e aqui significa para sempre e em cada um de nós – continuará a traduzir-se pela linguagem do teatro a esperança que definitivamente depositamos na vida. Aqui o teatro resiste.

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Recordar Abril (7)

O 25 de Abril e o Teatro Independente




























Abril também passou por aqui


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abril 14, 2004

Recordar Abril (6)


A Liberdade em Abril


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abril 13, 2004

Guerra do “Ultramar”

«Fim à Guerra Colonial» foi talvez a “palavra de ordem” que mais sentidamente gritei, eu que, pela Revolução de 25 de Abril, tinha a tropa a perfilar-se (quase) no horizonte da minha vida.
E tropa, nos treze anos que antecederam Abril de 74, era sinónimo de guerra, dois anos a malhar com os ossos em Angola, Moçambique ou no pesadelo da Guiné, sabendo-se que não eram poucas as perspectivas de ir e não voltar ou voltar dentro de um caixão de chumbo (foram mais de 8.000 militares mortos), ou voltar vivo mas estropiado, com braços ou pernas decepados.
Em vésperas da Revolução de Abril, era este o fatídico “destino” que aguardava os rapazes portugueses. Destino construído pelos políticos da altura que, teimosamente e ao arrepio de todas as condenações internacionais, se recusavam a reconhecer o direito à autodeterminação das então colónias portuguesas, preferindo continuar uma guerra insensata que exauria financeiramente o país e mergulhou tantas famílias portugueses em desespero e dor.
Por isso, para mim, a Revolução do 25 de Abril será sempre comemorada duplamente: porque pôs fim à ditadura e institui a Liberdade mas também porque significou o termo de uma guerra sem sentido onde, felizmente, não cheguei a participar.

Publicado por vmar em 08:02 PM | Comentários (2)

Palavras de Ordem

A Revolução de 25 de Abril trouxe a Liberdade e encheu as paredes e muros deste país cinzentão de pinturas garridas, inúmeros cartazes e as mais diversas “palavras de ordem”.

Escritas nas bandeiras e panos, as “palavras de ordem” eram gritadas pelas multidões que participavam nas sucessivas manifestações e comícios, enchendo as ruas de animação e colorido.
«O Povo está com o MFA», «Viva a Liberdade», «Abaixo a reacção», «Fim á Guerra Colonial», «o Povo Unido Jamais Será Vencido», são das mais conhecidas, a par de outras mais partidarizadas como: «Assim se vê a força do PC», «Força, Força, Companheiro Vasco, Nós Seremos a Muralha de Aço», «Trabalhadores Unidos Vencerão», «Unicidade Sindical».

Mas logo os anarcas e os brincalhões, a par destas palavras de ordem oficiais, desataram a criar outras, por vezes bem divertidas e reveladoras do nosso génio inventivo.
Relembro algumas, de memória: «Abaixo a Reacção, Viva o Motor a Hélice», «O Galo de Barcelos ao Poder, Já!», «Abaixo a Foice e o Martelo, Viva o Black and Decker», «A terra a quem a trabalha, Mortos fora dos cemitérios», «O Socialismo está em construção, Visite o andar-modelo».
À palavra de ordem «Nem mais um soldado para as colónias» era frequente acrescentar-se: «E nem mais um faroleiro para as Berlengas, E nem mais um anti-ciclone para os Açores».
E houve uns marotos que, quando aparecia, escrita nas paredes, a palavra de ordem relativa a Vasco Gonçalves: «Força, Força, Companheiro Vasco», se entretinham a apagar a cedilha do "ç" da Força.

Alguém se lembra de mais “palavras de ordem” do PREC?

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abril 12, 2004

Recordar Abril (5)


A Mulher em Abril

Publicado por vmar em 07:16 PM | Comentários (4)

As marionetas















Liberdade em Abril

Publicado por vmar em 12:35 AM | Comentários (0)

abril 11, 2004

A alegria no trabalho

Respigado ainda do Livro de Leitura da 3ª classe (nos tempos da ditadura a que a Revolução de Abril pôs termo)

Lembram-se? Ranchos de raparigas alegres, muito amigas de cantar, andam no meio das searas, debruçadas sobre a terra, a arrancar as ervas ruins, para o trigo poder crescer á vontade. É o trabalho da monda.
A labuta não as cansa. Saem de casa logo de manhã cedo, a rir, como se fossem para uma festa. Levam o dia a cantar ao desafio com os melros e as cotovias; e, ao largarem o trabalho, à hora do sol-pôr, voltam para casa ainda a rir e a cantar.
Todo o trabalho é assim: dá saúde e alegria, mormente o que se faz ao ar livre
(lição “As mondas”, pag.15)

... E levam todo o dia debruçados sobre o trigo, de espigas cor de oiro, curvados para a terra com o peso dos grãos.
Nem bafo de aragem sopra, ás vezes, e o próprio ar parece de fogo.
Escorrem-lhe das fontes grossas bagas de suor.
No entanto, nem sombra de tristeza se lhes descobre no rosto. Pelo contrário, a regularidade com que abraçam as hastes para logo as cortarem com a foice e as deixarem, ás paveias, no restolho, e a alegria com que atiram para o ar as suas cantigas, fazem-nos crer na sua felicidade.
É que não há trabalho custoso, quando não falta a vontade de trabalhar.
(lição “Os ceifeiros”, pag. 57)

... Os cachos são cortados para os cestos e depois transportados para os lagares, onde são esmagados.
De vez em quando, abelhas enfurecidas enterram o ferrão na pele de quem lhes anda a roubar a reserva de açúcar, mas nem por isso deixa de haver alegria. A azáfama é sempre grande, e não há cansaço que diminua o entusiasmo de todos...
(lição “As vindimas”, pag. 74)

Nota: os bold’s são de moi-même

Publicado por vmar em 11:37 PM | Comentários (3)

A longa noite das trevas

Naqueles tempos – tempos da ditadura a que a Revolução de Abril pôs termo – a escola primária era, quase sempre, sinónimo de reguadas (apanhava-se nas mãos, que ficavam a arder...), de Mocidade Portuguesa com os seus obrigatórios exercícios e marchas, de muito “decoranço” das sábias lições que vinham nos livros, todas elas viradas para a apologia do Estado Novo e dos valores tradicionais condensados na trilogia do regime: “Deus, Pátria, Família”.
E, amarfanhando por completo a criatividade e espírito crítico dos alunos, era obrigatório empinar tudo, papagueando a lição, mesmo quando não compreendíamos nada, desde as linhas de caminho de ferro e seus ramais às produções agrícolas das “nossas províncias ultramarinas” (era assim que se chamava às ex-colónias).

O Livro de Leitura da 3ª Classe é o único livro que conservo dos meus tempos de escola primária. Descobri-o em casa dos meus pais, esquecido entre papeis antigos. O que aconteceu aos restantes livros da primária não sei, talvez tenham ficado tão estragados pelo uso que foram para o lixo. Ou tenham sido dados a alguém, não me lembro. Já agora acrescento que, tanto este livro como o respectivo da 2ª classe, foram reeditados e postos á venda há uns dez anos atrás.

No referido Livro de Leitura da 3ª classe, a primeira lição era sobre a Pátria. Rezava que “É nossa Pátria todo o território sagrado que D. Afonso Henriques começou a talhar ....é o solo abençoado de todo o Portugal, com as suas ilhas do Atlântico (Açores, Madeira, Cabo verde, S. Tomé e Príncipe), as nossas terras dos dois lados de África, a Índia, Macau, a longínqua Timor”. As últimas lições eram sobre Doutrina Cristã, ensinando, entre outras sacrossantas verdades, o que era o Céu, o Inferno e o Purgatório e a quem eram destinados. Pelo meio ensinavam-se várias “virtudes”: obediência, respeito pelos chefes e governantes, veneração pelos heróis da Pátria, dedicação ao trabalho, humildade, satisfação na honradez da pobreza.

Aqui ficam alguns pequenos exemplos, ilustrativos do ensino obscurantista que vigorou nessa longa noite, de quase meio século, que foi a ditadura fascista em Portugal.

A Joaninha, logo que se levanta, lava-se, penteia-se, veste-se e calça-se. Quando vai dar os bons-dias aos pais, quase sempre a mãe lhe compõe um pouco melhor o laço da cabeça. Reza as suas orações, almoça e vai para a escola. Pobrezinha, mas muito lavada, vestido sem nódoas nem rasgões, é um encanto vê-la... (lição “A Joaninha”, pag.11)

Desde pequenina, a Maria de Fátima gostava de ter os vestidos arrumados e limpos. De vez em quando, lá deixava algum brinquedo fora do seu lugar; mas bastava uma pequena advertência da mãe para pôr tudo como devia. Na escola, desde a primeira classe, que tem merecido a simpatia da sua professora pela pontualidade com que todos os dias comparece, pela prontidão com que faz os exercícios, pela boa vontade com que escuta os seus conselhos e pelo arranjo e asseio dos livros e dos cadernos. Não é muito inteligente, mas é das que mais sabem... (lição “A felicidade pelo estudo”, pag 6)

...Martim Moniz deixou-se cair atravessado nos batentes, para que a porta se não fechasse. Enquanto os mouros tentavam remover-lhe o corpo, acudiram os portugueses em chusma. Trocaram-se lançadas e cutiladas sobre o corpo do herói, mas a porta não se fechou. Os mouros recuaram em desordem, e os portugueses avançaram cheios de entusiasmo. O bravo Martim Moniz, se ainda então conservava algum alento de vida, morreu contente por ver que os cristãos o calcavam aos pés para entrarem vitoriosos na cidade (lição “O castelo de S. Jorge”, pag.26)

Pela morte a alma separa-se do corpo... Os últimos fins da nossa vida são: a Morte, o Juízo e o Inferno ou o Paraíso para sempre... Assim será no fim do mundo: Todos se apresentarão diante de Deus para serem julgados solenemente. E os anjos separarão os bons dos maus; aos bons será dado o Céu e os maus serão lançados no Inferno... Eu quero ir para o Céu, para possuir a Deus e viver eternamente na companhia de Nossa Senhora, dos Anjos e dos Santos. Hei-de fugir de todo o pecado, para não ser sepultado para sempre no Inferno com os demónios e os maus. (lição “O valor da alma e o seu destino” pags.201 e 202)

Nota: os bold’s são de moi-même

Publicado por vmar em 10:59 PM | Comentários (9)

Recordar Abril (4)



Fascismo não! Liberdade sim!

Publicado por vmar em 12:36 PM | Comentários (2)

abril 10, 2004

É preciso agir

Primeiro levaram os comunistas
Mas não me importei com isso
Eu não era comunista

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os sindicalistas
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou sindicalista

Depois agarraram uns sacerdotes
Mas como não sou religioso
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.

Bertold Brecht

Publicado por vmar em 06:11 PM | Comentários (12)

Recordar Abril (3)

Democracia sim! Fascismo não!


Publicado por vmar em 12:58 AM | Comentários (4)

abril 09, 2004

Recordar Abril (2)








O Povo e o MFA!













Publicado por vmar em 06:15 PM | Comentários (1)

Recordar Abril (1)

O Povo e o MFA!

Publicado por vmar em 12:34 AM | Comentários (8)

abril 08, 2004

Recordar Abril

MFA – Movimento das Forças Armadas

Liberdade para sempre!

Publicado por vmar em 07:55 PM | Comentários (2)